Cristina Azevedo  

 

Depois de um ano de intervalo devido às restrições provocadas pela pandemia de Covid-19, o projeto Fiocruz na Antártica (Fioantar) retomou as expedições científicas ao continente com um novo embarque na manhã desta quarta-feira (13/10). Após uma semana em quarentena com ações para enfrentamento à Covid-19, incluindo execução de testes diagnósticos antes e durante o período, o navio de apoio oceanográfico Ary Rongel partiu rumo à Estação Antártica Comandante Ferraz com o pesquisador Lucas Moreira. Em novembro, mais três pesquisadores do Fioantar - Maria Ogrzewalska, Harrison Magdinier Gomes e Maithê Magalhães - zarparão no navio Almirante Maximiano, também chamado de “Max”, completando a primeira parte da missão. 

Foto: Arquivo pessoal

Os testes e a quarentena são algumas das mudanças que veteranos e novatos enfrentam. A pandemia aumentou também o tempo da viagem. Se as duas expedições anteriores duraram apenas um mês, já que parte do trajeto era coberto de avião, agora são necessários três meses, porque a viagem inteira é feita de navio - sem que os tripulantes e pesquisadores desçam em qualquer parada até a Antártica para não haver risco de contaminação.   

Terceira expedição e Fiolab  

As medidas extras de segurança não diminuíram o entusiasmo de Maria, Lucas, Harrison e Maithê, que vão nesta Terceira Expedição, nem de Martha Lima Brandão e Roberto do Val Vilela, que vão na Quarta, em janeiro. Até o “Max” chegar à Antártica, Lucas estará trabalhando na estação. A reunião do grupo será breve: Lucas passa o bastão para Harrison e Maithê, deixa a estação e sobe no Max para seguir viagem com Maria, realizando coletas em diferentes pontos do continente.   

Enquanto Maria e Lucas ficarão baseados no navio, muitas vezes sem conexão com o mundo exterior, Harrison e Maithê estarão na estação, desta vez com uma novidade a mais: o Fiolab - laboratório de biossegurança montado e instalado pela Fiocruz na Estação Antártica. Inaugurado em janeiro de 2020, o laboratório permitirá que as amostras coletadas perto da estação sejam analisadas imediatamente, sem ter que esperar a chegada do navio no Rio de Janeiro, prevista apenas para abril do próximo ano. 

Foto: Paulo Lara

“Temos amostras coletadas em 2019 e 2020, e agora vamos poder coletar e analisar as novas sem que fiquem muito tempo estocadas. Esperamos ver se o resultado é mais eficiente e como se comportam”, contou Harrison, pesquisador do Laboratório de Biologia Molecular Aplicada a Micobactérias (IOC/Fiocruz).  

Harrison e Maithê, que trabalham especificamente com bactérias e micobactérias, farão as coletas programadas pela equipe do Fioantar como nas outras expedições na Península Keller, onde fica a estação. Eles vão coletar água, solo, líquens, fezes e carcaças. A ideia é extrair o DNA de algumas amostras na estação e depois continuar os estudos no Brasil. Entre as micobactérias estudadas por Harrisson que sobrevivem em baixas temperaturas, está a Mycobacterium tuberculosis, capaz de causar infecção em humanos, e a M. bovis, usada na fabricação da vacina BCG. “Nesse projeto pretendemos identificar padrões de distribuição de microorganismos nesse ambiente de frio extremo e agregar informações para acompanhar a resposta desses microorganismos a mudanças climáticas”, explicou Harrison, que faz a sua segunda viagem.  

Maithê, do Laboratório de Genômica Funcional e Bioinformática (IOC/Fiocruz), vai pela primeira vez. Ela está mais focada em metagenômica - a análise do genoma de todo microorganismo que tiver a amostra coletada. Junto com Harrison, ela ressalta que os resultados “não atendem só aos seus laboratórios, mas a todos os grupos do Fioantar”.  

Três meses no navio  

 

Foto: Paulo Lara

Lucas trabalha no Laboratório de Micologia (INI/Fiocruz) com fungos e bioprospecção para aplicações terapêuticas e industriais. O grupo de micologia da Fiocruz já identificou fungos patogênicos pela primeira vez na região e tem resultados inéditos. Ele também modera as expectativas e observa que na Antártica “quem manda é a condição climática”. O pesquisador espera que o tempo ajude e possa ir nas Aspas (Áreas Antárticas Especialmente Protegidas), que têm menor influência do homem.  

Permanecer tanto tempo num navio traz também um desafio psicológico. São meses sem ver a família e longos períodos sem comunicação. “É um espaço muito fechado, com pessoas que você não conhece. Você precisa sair da cama de lado, sem levantar o corpo”, conta Maria. “Eu adoro a pesquisa de campo, então não me incomodo.” Maria deve retornar ao Brasil no final de dezembro, com Lucas possivelmente voltando à estação e regressando com o restante do grupo em meados de fevereiro.  

Pesquisador alpinista vai na 4ª expedição  

Em janeiro será a vez de Martha e Roberto, que já estiveram na Antártica. Ela já foi duas vezes, e, embora Roberto vá pela primeira vez como pesquisador, ele já esteve no continente outras seis vezes como alpinista, contratado pela Marinha. 

“Um alpinista antártico cuida da segurança nos deslocamentos, principalmente em gelo. Uma geleira esconde fendas cobertas por neve. É preciso andar ‘ancordado’. Muita gente já desapareceu na Antártica por conta disso”, conta Roberto, que trabalha no Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios.  

Martha, do Laboratório de Paleoparasitologia da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), e Roberto trabalham com biodiversidade de helmintos, conhecidos como vermes intestinais na sua maioria. O conhecimento da fauna de helmintos em um hospedeiro - no caso da Antártica os hospedeiros estudados são aves e mamíferos marinhos - nos informa os hábitos alimentares e algumas vezes a rota migratória desse animais, que é uma informação importante para o Fioantar que busca conhecer a circulação de patógenos na Antartica e entre outros continentes.   

“Pela fauna de helmintos é possível identificar de que seus hospedeiros se alimentam e conhecer um pouco da saúde do ambiente em questão” observou Martha. “Nosso grupo tem uma visão integrada, esse é o nosso diferencial. Somos pesquisadores que trabalham com grupos biológicos diferentes (vírus, helmintos, fungos, bactérias e líquens) e buscamos de forma integrada informações sobre a circulação de todos esses patógenos no continente antártico”, conclui.