Expedição: Quarta expedição

Martha Lima Brandão

Foto: Martha Brandão

 

Era finzinho de março, e nossa expedição ia se aproximando do fim. O navio pernoitou em Deception, onde pudemos coletar nos dois últimos pontos da ilha: Fumarole Bay e Caliente Hill. Deception ganhou esse nome porque quando os navegadores a avistaram, viram uma ilha enorme. No entanto, ela tinha uma entrada estreita: a tão esperada ilha era uma cratera de um vulcão. No meio, só água cercada por um estreito arco de terra. Uma decepção para aqueles navegantes. Apesar disso, é um lugar lindo. Para mim, foi igualmente decepcionante porque esses dois últimos pontos não tinham nada de interessante. Nenhum animal, nem suas fezes. 

Em Caliente Hill havia um único lobo-marinho sozinho, deitado no meio do nada, e mais uns três ou quatro na água, bem longe. Nem um albatroz ou petrel voando. Coletamos solo e partimos para Fumarole Bay, que nem lobo tinha. Só fumarolas brotando do solo. Tínhamos mais um ponto à tarde: a Ilha Livingston, e foram quatro horas de navegação até lá. Seguimos para Hanna Point. Lá, fomos recebidos por muitos pinguins que, curiosamente, corriam assustados em nossa direção. Foi engraçado, porque eles tinham medo de nós, entretanto vinham correndo para nos ver. A pinguineira ficava do lado direito do ponto de desembarque, e vinham centenas correndo do outro extremo da ilha. Só víamos Papua, mas na pinguineira havia um ou outro Antarticus. Um canto da praia estava cheio de elefantes-marinhos, principalmente fêmeas e machos jovens. Mais para o alto da pinguineira tinha uma roseta (vários elefantes aglomerados), com machos adultos também. Estava feliz coletando muitas amostras. 

O vento chegava a 18 nós (mais de 30 km/h), e só aumentava. Fazia muito frio! No alto da pinguineira era pior. Lá em cima havia vários ninhos de petrel gigante, com os filhotes desajeitados nos olhando. Desci e avistamos o bote chegando para nos buscar. O tempo estava virando, as ondas crescendo, e era prudente não cumprirmos as quatro horas de campo.

Na volta, tem a parte do laboratório. Organizar e etiquetar todo o material coletado durante o dia. Em duas horas, eu e Roberto do Val Vilela, meu companheiro de Fioantar, conseguimos organizar todo o material. 

Março ia chegando ao fim, e a expedição também. No dia 29, fomos para o quinto ponto seguido, sem um dia de descanso: Devil’s Point, também em Livingston. Iríamos de helicóptero nos últimos voos do Destacamento Aéreo Embarcado (DAE) na Antártica. 

Do alto, víamos ilhotas com rochas pontiagudas emergindo da água no caminho para a grande ilha, um mar incrivelmente azul cristalino e os animais... Pinguins espalhados por todos os lados. Na praia, dentro d’água e nos campos com musgos, eles estavam por toda parte. 

O helicóptero nos deixou em uma parte deserta. Caminhamos até a costa, e o alpinista (que nos acompanhou por questão de segurança) sugeriu andarmos até a extremidade da ilha e voltar coletando. Assim poderíamos observar toda a área e parar nos melhores pontos. No caminho, cruzamos com vários grupos de pinguins. No final, uma rocha alta levava a uma prainha voltada para o outro lado da ilha, cheia de elefantes-marinhos. Roberto ficou nessa prainha coletando amostras de solo e fezes de elefantes-marinhos, e comecei a retornar, coletando. Skuas reclamavam da minha presença dando voos rasantes, mas logo entenderam que eu não as faria mal e se acalmaram. 

O vento começou a aumentar e, com ele, o frio. Eu me concentrava na coleta, mas vez ou outra parava para botar as mãos no pescoço para esquentá-las um pouco. O frio dói! Passaram-se três horas sem sentirmos. Estávamos bem longe do ponto de pouso e tivemos que acelerar. No caminho de volta, um pinguim morto e um elefante-marinho fêmea. O pinguim já estava meio mexido pela skua, mas conseguimos passar um swab na faringe. E ainda tinha uma amostra de fezes da elefanta. Já ouvíamos o helicóptero, e eu coletava rapidamente. 

O vento soprava forte, e eu caminhava com força contra ele. Cheguei para o último voo na Antártica nesse lugar lindo, feliz e agradecida. Deu tudo certo.

Aprendendo com os pinguins

Foto: Martha Brandão

 

Faltavam mais três pontos para fecharmos a programação, o tempo virou e a previsão era de três dias parados na Baía do Almirantado, em frente à estação, esperando as condições melhorarem. Os três eram próximos, demandando pouco tempo de deslocamento do navio.

Após três dias, seguimos para Harmony Point. Com vento entre 18 e 20 nós (de 33 a 37 km/h), estava bastante incômodo até para os pinguins, que se mantinham de costas para a ventania. Aprendemos com eles a como nos comportar. Foi um ponto bom, com lobos-marinhos espalhados na beira da água, mas também perto da encosta, e uma pinguineira relativamente grande à esquerda do local de desembarque. Como sempre, eu segui coletando fezes, e Roberto, solo e líquens. 

Voltamos ao laboratório para processar as amostras e depois comer e dormir, porque no próximo dia faríamos os dois últimos pontos. Últimos pontos e últimos dias na Antártica. No navio, começaram todos a ficar com um ar nostálgico. Muitos perguntaram se poderiam desembarcar conosco. Harmony e Potter são ASPAS, área de proteção onde é preciso ter licença para desembarcar. Então, não podíamos levar mais ninguém.

Na Antártica, as áreas protegidas são denominadas ASPAS (Antarctic Specially Protected Area), onde só quem tem licença pode ir, e quem faz a fiscalização dessas normas somos nós, pesquisadores. Assim como um pesquisador argentino me pediu a licença da outra vez, eu poderia ter pedido a dele. Potter tem uma estação argentina. Desta vez, cruzei com o chefe dessa estação e mais cinco pesquisadores.

Eu havia estado lá na Operação XXXVIII. Desta vez, chegamos por outro lado da ilha, e caminhei bastante até de fato reconhecer o ponto em que estivera dois anos antes. Ficamos em uma praia bem pequena da outra vez. Desta vez, fui de um lado ao outro: em um, havia muitos lobos-marinhos; no outro, mais pinguins. 

Risco de hipotermia

Quando chegamos, o mar "estava grande". Paramos na outra praia para evitar a arrebentação. Na Antártica, praia com onda quebrando é perigosa. Corre o risco de uma onda "lavar" o bote. Em qualquer outro lugar, seria uma situação relativamente tranquila. No entanto, aqui, significa nos molhar a uma temperatura que em menos de um minuto podemos morrer de hipotermia. Não dá para arriscar. Essa é a parte da aventura. Mas o pessoal de mergulho da Marinha é muito experiente. Não tivemos problema algum, e o desembarque foi tranquilo. 

Voltamos para o navio para almoçar e deslocar o Tio Max para o último ponto desta missão: Three Sisters, um ponto novo para mim. Quando saímos com o bote cheio, o mar já estava maior que pela manhã. Fiquei preocupada com a volta deles para o navio com o bote vazio, já que, com peso, tem mais estabilidade. Deu tudo certo, mas bateu muito. No nosso retorno, o mar estava um pouco mais calmo. Ainda assim, foi emocionante. Para uns foi bom. Para outros, um pouco assustador. 

"Etiqueta" com lobos-marinhos

Foto: Martha Brandão

 

Three Sisters foi especial pela quantidade de elefantes-marinhos. Dezenas. Um em cima do outro. E quando passávamos perto, levantavam a cabeça e nos olhavam. Os lobos-marinhos também estavam por todos os lados. É importante saber como se comportar diante de animais selvagens. Qualquer um, marinho ou terrestre, tem "uma etiqueta”, e é importante explicar para os que não conhecem muito bem a fauna local como se comportar. Os elefantes-marinhos olham e voltam a dormir. Um ou outro se mexe, rosna um pouco, nada além disso. São enormes, pesam toneladas, e se uma pessoa não conhece o comportamento deles, facilmente se assusta. 

Já os lobos-marinhos às vezes resolvem testar-nos e ameaçam correr em nossa direção. Algumas vezes, realmente correm. A melhor forma de se comportar é levantando os braços e fazendo barulho. Eles se assustam, param, olham e vão embora. Mas é preciso fazer isso com convicção. Se os animais veem que estamos com mais medo do que eles, correm em nossa direção. Tive que me meter entre um lobo-marinho e uma pessoa embarcada. Corri batendo palmas e gritando. Deu certo, o lobo foi embora! 

Fora esses animais, tinha uma geleira descendo em um canto da praia. O vento aumentou, e ao lado da geleira fazia mais frio ainda. Avistamos o bote vindo e nos concentramos no ponto de embarque para a última “xilingada” na Antártica! O mar acalmou um pouco. Último dia com emoção. Dia cansativo, 100% de aproveitamento. Missão cumprida.

Hoje, 6 de abril, às 8h43, o Capelão avisou no fonoclama: “Almirante Maximiano, estamos navegando em águas brasileiras!” O coração bateu forte. Estávamos chegando.

Três meses e dois dias dentro do navio. Quer dizer, passei 15 dias na estação durante esse período, mas de qualquer forma a sensação é muito parecida com a de estar embarcado: não estávamos navegando, mas continuávamos praticamente isolados do mundo. Estava voltando à vida real. No entanto, também dava um "banzo” (palavra que aprendi aqui no navio, uma saudade) de tudo isso. Ainda faltava uma semana para chegar em casa, mas ouvir isso alegrou o coração. Se eu caísse na água, não morria mais. 

Agora me vinha à mente o dia do meu aniversário! Foi na Antártica. Dois dias após o término das coletas, tive o privilégio de fazer aniversário no dia da comemoração do encerramento da Operantar XL. Churrasco na estação com todos, o H41 (o Tio Max), o H44 (o navio Ary Rongel, que também dá apoio as pesquisas e recebia outro grupo de pesquisadores) e todos que estavam na estação, Grupo Base (GB), pesquisadores e destacados. Uma festa que não era para mim, mas da qual tirei uma casquinha porque abriram um espaço para os meus parabéns! Morri de vergonha, mas também de alegria de viver o encerramento oficial da Operantar XL no meu aniversário. Para fechar o dia com muita emoção, o tempo virou, e saí no penúltimo bote da estação para o navio com mar nervoso, batendo, e acabamos tomando um banho de água salgada. Um banho salgado e gelado (o rosto dói!) com os respingos que caíam sobre nós. 

Esta noite chegaremos ao porto de Rio Grande, onde tudo começou no dia 3 de janeiro. Acabo de receber meu certificado com 9.752 milhas náuticas navegadas em 69,5 dias de mar. Amanhã, a equipe do Núcleo de Estudos da Vegetação Antártica (NEVA) deixa o navio porque mora aqui no Sul, e sigo como única pesquisadora embarcada até o Rio de Janeiro - serão mais cinco dias – para cuidar das amostras coletadas. 

Encerro esse meu diário com a esperança de voltar à Antártica muitas outras vezes. Bravo Zulu* a todos nós!

*Expressão da Marinha de parabenização.